Sintab denuncia descaso da prefeitura de Campina com os garis

12 setembro de 2017Sem comentáriosArquivado em: Notícias, Sintab em Ação

Invisíveis para a gestão, servidores não recebem EPI’s nem fardamento e enfrentam situações de risco no dia a dia

Em Campina Grande é difícil identificar de longe um agente de limpeza urbana. Os tons dos uniformes, que deveriam ser necessariamente coloridos e chamativos, feitos de boa matéria prima, quase não são percebidos. Estão velhos, desbotados, gastos, rasgados, alguns sequer completos, destruídos pela ação do tempo e do uso contínuo. Os trabalhadores possuem apenas um exemplar da farda, recebida por alguns há cerca de dois anos, por outros, em setembro do ano passado, conforme os relatos colhidos por esta reportagem.

As dificuldades enfrentadas pelos servidores não param por aí. Embora o Estatuto do Servidor Municipal da Administração Direta, Autarquias e Fundações Públicas Municipais de Campina Grande, determine a concessão gratuita de equipamentos indispensáveis à proteção física e à saúde do trabalhador, a categoria não recebe o material indicado pela legislação.

Não há luvas, nem botas – pelo menos não para a grande maioria –, óculos de proteção, boné, protetor solar nem capa de chuva, mesmo que o trabalho não seja interrompido quando o sol está a pino ou quando cai chuva. O descumprimento foi constatado em loco pelo Sindicato dos Trabalhadores Públicos Municipais do Agreste e da Borborema (Sintab), que percorreu ruas de Campina e alguns dos principais pontos de coleta, além do DTO, e denuncia o extremo descaso da gestão municipal.

“Parece que a gente é invisível”

São 32 anos de serviço público que seu João (nome fictício) ostenta com o orgulho de ter dedicado a vida à limpeza da cidade. Mas há também tristeza no olhar do gari. Perto de se aposentar, ele revela que nada evoluiu em mais de três décadas de trabalho. Na Feira Central, com 63 anos, recolhe lixo no mercado e carrega até o ponto de despejo, distante cerca de 500 metros de onde concentra sua coleta.

“Tem mais de dois anos que eu não recebo farda nova, só tenho essa e não é só comigo isso não. Carrego essa carroça umas quatro vezes até o ponto de despejar, aí às vezes a roda solta, é uma agonia. Todo dia, menos no domingo, eu ‘tô’ aqui de 7h às 11h, mas parece que a gente é invisível”, lamenta.

Local que deveria ser de descanso para os coveiros, no Cemitério Monte Santo

Local que deveria ser de descanso para os coveiros, no Cemitério Monte Santo

Não menos precário é o dia a dia dos profissionais que atuam no Cemitério do Monte Santo. Lá, as condições de insalubridade por si, já deveriam impedir o trabalho dos agentes. Paredes com mofo, banheiro sem nenhuma condição de uso, entulho de ferro velho onde deveria ser o local de descanso dos coveiros, coletores de lixo enferrujados, mesmo tendo sido entregues há cerca de dois meses como ‘novos’, segundo os relatos dos funcionários. Uma breve caminhada pelo local revela os garis trabalhando de chinelo, de short e sem bonés, chapéus, máscaras ou luvas.

No DTO, local de concentração da maioria dos profissionais que coletam lixo na cidade, a situação não é diferente. Cada funcionário recebe um pão com manteiga e um copo de café, chá ou café com leite, sem repetição. O lanche, considerado fraco pra labuta diária dos garis, é entregue também a quem trabalha nas praças centrais, mas pelo menos na Clemetino Procópio, segundo a narrativa dos servidores, está chegando em quantidade menor do que o número de trabalhadores do local.

Ainda com relação ao DTO, a alimentação não é o único problema.  Também lá não existe uma mínima estrutura física adequada ao trabalho. Todo o ambiente é insalubre, escuro, muito antigo, visivelmente sem reparos há um bom tempo, banheiros com muito mofo, infiltrações, paredes descascando e caindo aos pedaços, literalmente. “É essa a realidade que a gente enfrenta todo dia”, relatou Mariano (nome fictício) há sete anos como efetivo.

Outro problema gravíssimo constatado pela reportagem foi a atuação de vários profissionais prestadores de serviços que revelaram trabalhar sem carteira assinada, recebendo bem menos que aqueles concursados e sem nenhum direito trabalhista garantido.

Sintab reforça descaso da gestão

Para o presidente do Sintab, Nazito Pereira, os garis são mesmo invisíveis para a gestão municipal. “A situação é bastante grave e o Sintab tem feito seu papel ao longo dos anos. Temos enviado ofícios frequentemente ao secretário de obras e ao prefeito e até o momento nós não recebemos sequer uma sinalização de que haverá uma solução de fato”, contou.

Segundo ele, o que houve por parte da Prefeitura Municipal de Campina Grande (PMCG), foram apenas medidas paliativas, quando houve maior pressão da categoria. “Em um ou dois momentos houve uma atenção pequena do secretário, que diante da pressão comprou de imediato alguns EPIs, mas não vemos uma demonstração clara de que eles estejam preocupados com a situação precária destes trabalhadores”, reforçou.

A produção desta reportagem especial é, conforme ressaltou o próprio presidente, reflexo das negativas e do descaso da prefeitura. “Nós ouvimos os relatos dos servidores e vimos o que eles estão sofrendo na pele, as fotos também falam por si. Aproveitamos pra chamar a atenção do prefeito Romero Rodrigues, para que nos atenda, já que ele está nos devendo uma audiência há mais de dois meses. No último encontro que tivemos com ele, não conseguimos abordar estes pontos porque simplesmente ele não nos deu tempo para isso. Espero que o prefeito Romero assuma seu papel de gestor público para todos os campinenses”, salientou. 

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